Histórico do local
Umberto Eco criou uma definição deliciosa e infalível para descrever o papel do editor de livros. É uma revelação por contraste e tão simples que, quem se apanhar um dia em dúvida a respeito do assunto, deve consultá-la. Para o escritor italiano, o que diferencia o negócio do livro do negócio do dentifrício bucal é que, à frente das editoras, estão homens de cultura, para quem o livro é mais do que um produto comercial. Do livro, diz Eco, saem idéias – sem nenhum demérito aos fundamentais fabricantes de pasta de dentes. Trata-se, apenas, de outro tipo de negócio.
A Ateliê Editorial surgiu há exatos dez anos e seu negócio certamente não é fabricar dentifrício bucal. Já no primeiro título, a novela O Mistério do Leão Rampante, de Rodrigo Lacerda, estava contido todo o projeto editorial: a escolha criteriosa de um bom e saboroso texto, a aposta (sempre arriscada, do ponto de vista comercial) em um escritor iniciante, a inovação e o zelo aplicados ao produto final – o livro. De saída, o resultado foi o bom acolhimento dos leitores e um prêmio, o Jabuti, ainda a maior premiação brasileira no campo literário.
O projeto editorial não se moveu um grau para a direita ou para a esquerda durante esses dez anos – um período, digamos, turbulento. Nessa década, o Brasil promoveu a ascensão de um intelectual ao poder e em seguida substituiu-o por um inédito representante das classes produtoras, foi engolfado por uma globalização irresistível que faz do mercado a grande referência existencial, assistiu à explosão da cultura de massa com direito a cafés filosóficos e muito bumbum balançando na telinha e espiou uma intimidade indesejável por meio dos reality shows. Na escola fundamental e nas universidades, o número de alunos subiu, simultaneamente ao crescimento da desigualdade social – este ano, nos tornamos vice-campeões mundiais na modalidade.
O mercado de livros acompanhou as contradições. Primeiro decolou a reboque de um plano econômico, tornando-se mais complexo e eficiente. Quem tem sorte de viver perto de uma livraria hoje (estima-se que, com muito otimismo, elas não chegam a duas mil em todo o país), encontra quase de tudo: boas e más traduções, livros bem e mal acabados, os chamados livros “difíceis” e, em destaque, os best sellers. Quando o Plano Real passou a enfrentar turbulências, o negócio caiu em conjunto. Hoje, anda meio deprimido. E isso traz de volta o amargo sentimento de que não temos uma cultura pujante o suficiente a ponto de produzir mais e mais leitores e oferecer a todos os diferentes prazeres do livro. Que fazer: correr para o negócio de pasta de dentes? Por que editar (bons) livros no Brasil, hoje?
Só o timoneiro da Ateliê Editorial poderia oferecer suas razões pessoais. Do agradável ponto de vista do leitor, entretanto, é fácil perceber por que o leme não foi alterado. A Ateliê Editorial cruzou a correnteza agitada e continua a fazê-lo. Escolheu dar vez a novos ficcionistas. Escolheu dar vez a ensaios de fôlego nascidos na academia sobre temas atuais e/ou relevantes em áreas como literatura, política, filosofia, artes etc. Escolheu caprichar na confecção do livro. Escolheu também não caçar best sellers – não haveria qualquer demérito em fazê-lo, mas foi a sua escolha. Mandou às favas uns tantos riscos e agarrou algumas oportunidades típicas de um país em que ainda tudo está por fazer. Editar, dar suporte às idéias, é preciso.
O projeto editorial da Ateliê está em franco desenvolvimento. Talvez o papel mais importante desempenhado até aqui seja o de oferecer a mais e mais leitores acesso à boa literatura e às boas edições, derrubando um preconceito tolo que repousa na cabeça de parte da elite cultural brasileira e que dá a ela um sentimento de propriedade sobre o conhecimento. Essa postura generosa da Ateliê Editorial só pode ser entendida se compreendido o seu timoneiro, um homem que fala com todos e sobre tudo.