Não precisa gostar de futebol para ler este livro. Eu não gosto e mesmo assim tive excelentes momentos ao atravessar as páginas deste texto sempre brilhante e original. A começar pela introdução, que liga com elegância suas experiências de vida com os seus temas de pesquisa, fazendo o que muito poucos antropólogos conseguem fazer bem embora recomendem a todos. À medida que vamos aprendendo sobre as experiências do autor vamos tendo uma aula de sociologia brasileira, a partir da perspicácia com que descreve os seus personagens e os situa na vida cotidiana brasileira. No caso específico, o seu próprio pai, sempre cônscio de seu papel de funcionário público e de mais alto salário da cidade pequena. À medida que avançamos na leitura, passamos da sociologia da sociedade brasileira para a do esporte e deste para reflexões existenciais, todas bem temperadas de sutilezas e ironias pelas surpresas que a bola traz. Através de jogadores, críticos de futebol, goleiros, juízes, espectadores, como a impagável grã-fina, e bandeirinhas vamos compreendendo os dilemas que o esporte nos coloca, com suas regras e lógicas, e nos fazendo rememorar as alegrias e lamentos que a bola, sempre caprichosa, teima em nos proporcionar quando chega antes ou não chega nunca às traves do nosso gol.



